O Ano de 2009 foi considerado pela UNESCO como 'Ano Grotowski' pela junção de três
datas importantes: os 10 anos de morte de Grotowski, os 50 de fundação do Teatro
Laboratório e os 25 de dissolução desse mesmo teatro. No Brasil, podemos anexar
uma outra data significativa: os 35 anos da primeira vinda de Grotowski ao Brasil.
Em várias partes do mundo, o percurso de Grotowski, singular e, ao mesmo tempo,
paradigmático, está sendo rediscutido e relido em seminários, encontros e congressos.
No Brasil, a UNIRIO, através de sua Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, e com curadoria
da Prof. Tatiana Motta Lima, organiza o "Seminário Internacional Grotowski 2009:
uma vida maior do que o mito" que buscará fazer da cidade do Rio de Janeiro um polo
de informação, discussão, investigação e análise do percurso de Grotowski, e de
sua influência em nosso país, por meio de inúmeras ações e atividades.
O grande interesse pela obra de Grotowski, no Brasil, mistura-se com a dificuldade
de acesso a seus textos e experiências, com imagens distorcidas de sua obra e com
o relativo desconhecimento de recentes estudos e investigações a seu respeito. Esse
desconhecimento traz uma marca: a da ‘mitologização’ de Grotowski. Acabamos alçando-o
à categoria de 'importante encenador e pensador do século XX', ou de 'mestre do
teatro', ou repetindo algumas de suas frases de maneira dogmática. E, assim, perdemos
a oportunidade de ver Grotowski não como mito, mas como pesquisador; não somente
como mestre, mas também como aprendiz (essas duas facetas estando em permanente
diálogo na sua trajetória); não como guru ou emissário, mas como investigador radical
do teatro, de suas potencialidades e desdobramentos. Perdemos a oportunidade de
extrair desse percurso uma quantidade de proposições, experimentações e questionamentos
sobre a investigação artística que venham a fermentar novas investigações e colocar
em questão certos paradigmas do fazer teatral.
Além de tudo, sendo seu percurso aquele de um pesquisador, ele se cruzou, alimentou
e foi alimentado por outros percursos – de atores, diretores, colaboradores, tradutores
– que nos interessa também conhecer e reconhecer. A investigação que se relaciona
ao nome de Grotowski é uma investigação 'viva'. Ela se realiza tanto no
Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards, quanto nas práticas
atuais de ex-colaboradores que trabalharam com o artista e hoje desenvolvem pesquisas
independentes. Ela também está 'viva' em inúmeros livros, artigos e papers daqueles
que têm se dedicado a analisá-la. São exatamente alguns desses artistas e estudiosos
que vamos trazer ao Brasil.
A obra de Grotowski é uma 'tradição' que só pode existir enquanto 'transformação'.
Ela se renova na medida em que é vista a partir de olhares e inquietações contemporâneas
mas, por outro lado, devido à radicalidade, profundidade e potencialidade da investigação
já realizada, ela também tem a capacidade de renovar – e inquietar - os olhares
colocados sobre ela.
Nada mais oportuno, portanto, do que aproveitar esse 'Ano Grotowski' para transformar
nosso interesse sobre o artista e sua obra em troca de informação, em discussão
e, sobretudo, em experiência, permitindo que artistas, estudantes, professores e
demais pesquisadores interessados na obra de Grotowski - e na reflexão sobre os
caminhos da arte contemporânea - tenham seus desejos e necessidades atendidos.
O Seminário, que recebeu o selo da UNESCO para o 'Ano Grotowski', terá desdobramentos
em São Paulo, com coordenação regional de Maria Thaís (TUSP), em Minas Gerais, com
coordenação regional de Ricardo Gomes (UFOP) e Fernando Mencarelli (UFMG) e no Rio
Grande do Sul, com coordenação regional de Daniel Reis Plá (UFSM).
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